Angústia

14 julho 2019



"Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios."pg.5



Perdidos, do meu "tuntun azul", estava com saudades de vocês!

Retorno com este livro, que é considerado uma das obras primas do autor Graciliano Ramos. Porém,  ao lançar (1936) não teve espaço na crítica da época. Mesmo não sendo um autor que eu "corra" para ler, vale a pena conhecer sua escrita e mergulhar em seus enredos (ricos em cultura e marcos políticos)

Então, venha conferir, a resenha do nosso livro do TOP COMENTARISTA de Julho/19!


"Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente, mas continuei a ignorar o que significavam." pg.97
Nosso protagonista, Luís da Silva, veio do interior (mundo rural) para a capital. Se vê em um cotidiano ordinário e escrevendo para um o jornal o que lhe pedem, atendendo a demandas de forma mecânica. Pois mesmo sendo um "nerd"e funcionário público, vive cada dia como se fosse "só mais um dia", não desenvolve na sua vida profissional e delonga um noivado com a desculpa de falta de condições.

Marina, a noiva, desencadeia um tormento na vida do Luís. Por causa do seu caso extra conjugal, esta o troca pelo filho de comerciantes bem sucedidos, Julião Tavares. Este pode a agradar com tudo o que deseja, diferente do protagonista que se afundou em dívidas, aluguéis atrasados e empréstimos.

"Tive a impressão de que os meus dentes estavam longe, fazendo um barulho que se misturava ao zumbido irritante das carapañas. Apertei os queixos, mas as castanholas permaneceram, e veio-me a certeza de que me havia tornado velho e impotente." pg.259
A partir daí, Luís se vê "mergulhado em um mar de ciúmes". E em meio a esta angústia desacelerada, desencadeia marcas da vivência passada a tempos, enterrada, em sua mente. Libertando um mal-estar de sua própria sobrevivência.

Com isto, passa a perseguir Marina, principalmente, após Julião a abandonar grávida. Nosso narrador, começa a fixar a ideia que somente a morte de Julião ( que já tem uma nova companheira), pode acabar com este suplício. 

"Liberdade, liberdade,
Abre as asas sobre nós..." pg.107

Como perceberam, a estória nos é passada, como se fosse um relato no diário, por nosso protagonista. Assim, sendo o nosso narrador, ele nos leva pelas esferas aonde a sua mente passeia. E este vê o momento do homicídio como o ápice do seu ego, se transformando em uma espécie de herói.
Todavia, caminhando para o fim da narrativa, Luís se sente sufocado em crises psicológicas e retorna ao ponto que inicia o livro. Demostrando pensamentos presos em ciclos eternos e confusos.

" (...) O pensamento parti-se. Ia cair de cama, delirar, morrer. A carne estremecia, os pés dos cabelos doíam-me. De quando em quando levava a mão ao rosto, e o contato da palma com a barba crescida arrancava-me palavrões obscenos grunhidos em voz baixa.(...)" pg. 284
Aqui temos uma leitura tensa e sombria, que nos leva a consciência do narrador em teor existencial. Enlaçando o passado com o presente. Então, ao unir essa teia com as frustrações, algumas vezes ( de propósito) não é tão claro saber o que é recordação do que é ato presente.

Duas curiosidades:

  • Primeira = Fiquei "encucada" e busquei o simbologia da "a corda, a cobra e os ratos", por serem citados diversas vezes. Encontrei que a cobra, além de apresentar o fálico, um constante confronto pessoal do personagem protagonista, vai ainda representar a falsidade. A corda, assim como a cobra, representa de certa forma o fálico, portanto, fornece também uma ideia de busca da redenção, salvação. Os ratos a sujeira que o personagem enxerga à sua volta e a já citada necessidade de uso da água, para lavar a sujeira que lhe toma.
  • Segunda = O ano de publicação do livro "Angústia", o autor estava preso pelo governo de Getúlio Vargas. E esta trouxe a conquista do prêmio " Lima Barreto" da Revista Acadêmica. Há críticos que incluem esta obra a uma trilogia, completada por Caetés(1933) e São Bernardo (1938). Todas são existenciais, com o narrador(sendo o protagonista) se desnudando e expondo todo o ciclo de culpas intensas.

Até a próxima resenha!

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7 comentários:

  1. Olá! Desde que vi o livro aqui no Top comentarista, fiquei bem curiosa para saber mais sobre a história, até porque até o momento não tive nenhum contato com a escrita do autor, e não é que gostei do que li até agora! Sem falar que o livro está na promoção na Amazon #ficaadica.

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  2. Amei a resenha!! Me deu mais vontade ainda de ler esse livro maravilhoso. Que obra, eu gosto dos clássicos por esses enredos nada óbvios e que te surpreende. Estava sentindo falta das publicações aqui, ainda bem que voltou!! Super Beijo

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  3. Que pensamentos angustiantes e obsessivos a do personagem Luís.
    Talvez hoje em dia chamaríamos de maníaco depressivo.
    Quando nada dá certo em sua vida,ele se vê perdido em suas angústias .
    Triste!

    Gostei da resenha Lays.

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  4. Será um presentão para o ganhador. Parece ser uma leitura densa, afinal envolve elementos de paixão e vingança. Essa angústia vivida pelo personagem parece fluir na narrativa de forma que acaba envolvendo o leitor.

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  5. Li um livro do autor faz muitos anos. Que vida essa do protagonista, e da mulher dele também larga um e arruma outro, que a abandona também, deve ser uma historia triste e que nos deixa refletindo sobre esses acontecimentos, ainda mais que o protagonista guarda rancor do Julião e a fica perseguindo existe muitos casos assim na vida real. Espero ganhar ele no top e saber como termina essa história.

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  6. Nunca li nenhum livro do autor, mas quero ler e conhecer as obras clássicas.
    Adorei esta nova capa. Espero que seja uma boa leitura para quem ganhar.

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  7. Tenho muita vontade de ler esse livro, pois acho a ideia muito boa.
    Mas já comecei várias vezes e não flui.
    Daí desisti kkkkk
    Bjd

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