Bate Papo com G.R.Slivar

08 julho 2019


Hoje nós vamos bater um papo com G.R Slivar, autora de "Todos a Bordo". 

O processo de pesquisa de um livro é fundamental para a construção de uma base para a história. Quando a história em questão se passa em um país com uma cultura completamente diferente da sua, é ainda mais desafiador. 
Como você pesquisou como funciona uma célula terrorista para embasar os argumentos e vivências de Emmannuel? 

G.R.Slivar: A pesquisa foi bastante extensa. Apesar de ser uma obra de ficção, essa história é também muito real, e eu queria respeitar isso. A maior parte da busca foi feita online e em obras que tinham o terrorismo e imigração como temas. Para definir qual seria o trajeto da Síria para a Suíça, por exemplo, enchi minha parede de post-its que representavam países e meios de transporte: um para trem, outro para barco, aviões e assim por diante.

Qual a maior dificuldade que encontrou durante seu processo de escrita? 

G.R.Slivar: Encontrar o meu processo. Eu havia lido relatos onde diversos escritores consagrados explicavam seus próprios métodos de escrita. Um deles, por exemplo, tinha como hábito escrever 5.000 palavras por dia. Por um tempo, eu achava que tinha que seguir a fórmula exata para construir uma boa história, mas não é bem assim. A gente precisa respeitar nosso próprio tempo e processo criativo, e isso eu percebi no meio do caminho.

Por que você decidiu trazer uma reflexão em seu livro acerca de como um terrorista pensa e fundamenta suas crenças através das conversas com Esther? 

G.R.Slivar: Acho que nós estamos acostumados a ver terroristas em atos de violência e discursos de ódio na mídia. Essa é a imagem que fica. Ao invés de focar na ação, eu quis focar no diálogo. No livro, Emmanuel precisa se misturar à multidão e, nesse momento, ele é incentivado a falar sobre seus sentimentos e sua história. Pela primeira vez em toda sua vida, alguém estava disposto a ouvir o que ele tinha a dizer e não o via apenas como uma arma, mas como uma pessoa.

Você em algum momento pensou em mudar o final do seu livro para dar uma visão diferente a história?

G.R.Slivar: As pessoas acham engraçado quando digo isso, mas não fui eu que escrevi o final, foram os próprios personagens. Em alguns momentos, eu gostaria que as coisas fossem diferentes, mas não tinha como. Depois de passar dias construindo e convivendo com Esther, Emmanuel e Dimitri, eu os conhecia e conhecia bem. Forçar qualquer coisa contrária a isso seria impor meu desejo pessoal a uma narrativa que, apesar de ser minha, não é.


Para você, qual a importância de termos livros como o seu, que trazem a questão dos ataques terroristas e a guerra da Síria para a pauta? 

G.R.Slivar: Acho que é sempre importante trazer assuntos críticos para mais perto. Quando lemos uma notícia ou vemos uma matéria na TV, tudo está acontecendo lá longe, num país distante, com pessoas que parecem não ter nada a ver com a gente. Acontece que somos todos humanos e, apesar de diferentes, somos iguais em muitas coisas. Perceber isso gera empatia, e nós todos precisamos de mais empatia no mundo.

Você brinca muito com a questão de que mesmo os "vilões" tem um lado humanitário e "bondoso". Exceto com Esther, que é em toda a história a personificação de uma pessoa essencialmente boa. Por quê ela não tinha um lado obscuro? 

G.R.Slivar: Na história, seu pensamento está praticamente tomado pela ideia de fugir. Enquanto Emmanuel, por exemplo, estava focado em realizar um ato terrorista (o que todos nós conhecemos e condenamos como ato desprezível e odioso), Esther estava lidando com questões que não nos são tão estranhas e, por isso, nos parecem menos obscuras, como o egoísmo. Ela foge, sua família não. E apesar de pensar neles, ela também os esquece e acaba por priorizar outras coisas, coisas de seu próprio interesse. 

Como surgiu a ideia desta história e quanto tempo você levou para concluí-la? 

G.R.Slivar: Ela surgiu meio que de repente, lendo uma notícia no trem. Comecei a pensar em como todas essas situações de terrorismo sempre têm os mesmos três personagens presentes: o terrorista em si, as vítimas e o político. Logo, comecei a escrever as primeiras linhas sem ideia ou pretensão de onde ou como parar. Pouco menos de um ano depois, o livro estava pronto.

Quais autores lhe inspiraram a tornar-se autora?

G.R.Slivar: Acho que mais que os autores, foram os livros que me inspiraram a escrever. Sempre tive o costume de levar um livro comigo para qualquer lugar e, quanto mais você lê, mais aprende a apreciar histórias e a querer escrever a sua própria. Mas, para citar alguns autores: Gabriel García Márquez, Edgar Allan Poe, Érico Veríssimo, Stephen King e George R. R. Martin.

Qual o seu livro de favorito e por que? 

G.R.Slivar: Eu tenho um carinho especial pela obra de Érico Veríssimo, "Olhai Os Lírios do Campo". Me lembro que foi um dos primeiros livros que realmente me cativou. Gosto muito desse quê poético em histórias e ele consegue trazer isso de forma tão leve e quase imperceptível em uma narrativa baseada completamente em conflitos. É a beleza na tristeza.

Deixe sua mensagem para os leitores. 

G.R.Slivar: Para os que já leram, espero que tenham encontrado seu lugar. Para os que ainda vão ler, sem bem-vindos a bordo. A literatura nacional ainda é muito menosprezada, infelizmente, e é ainda mais difícil quando a autora se trata de uma mulher. Mas assim como na história, ler é uma forma de quebrar fronteiras e mudar percepções tanto internas quanto externas. Convido então a quem quiser a se achegar, pegar sua xícara de café e embarcar comigo neste mundo inventado, porém tão real.

Gostaram do bate papo? Se vocês quiserem saber mais sobre o livro "Todos a Bordo", basta conferir a resenha no vídeo abaixo. 


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7 comentários:

  1. Olá! Gosto demais desses livros que nos apresenta uma cultura diferente e uma história tão singular quanto essa. Definitivamente não vemos livros que retratem esse outro lado do terrorista. E devo confessar que que já estou apreensiva com esse final. Quanto a entrevista é sempre muito bacana conhecer um pouco mais como é o processo de produção de uma história.

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  2. Fiquei embasbacada com o enredo da história. Me chamou atenção logo por ser literatura nacional e além disso, tratar de um tema difícil e mostrar a visão do terrorista. Confesso que gostei bastante e coloquei na lista de próximas leituras. Amei a entrevista com a autora e seu vídeo, me cativou mais em ler está obra. Super Beijo

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  3. Oi, gosto sim de livros que nos contam sobre uma nova cultura...
    Mas confesso que fiquei especialmente interessada em descobrir como a autora nos contará a história e pensamentos do personagem Emmanuel... Será como pensa uma pessoa disposta a cometer atos tão insanos?
    Não dá para entender!

    Fiquei bastante curiosa em ler o livro e descobrir como a autora desenvolverá a trama.


    Abraços

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  4. Gostei da entrevista deve ter dado um trabalho escrever este livro, outra cultura e terrorismo não é nada fácil de escrever sem muita pesquisa. Achei interessante o livro, pois sempre fico me perguntando o que se passa na cabeça de um terrorista para fazer o que faz, quais motivos eles acham que tem. Fiquei muito curiosa em saber o desenrolar dos protagonistas.

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  5. O tema é importante e imagino que realmente tenha sido um trabalho árduo de pesquisa como disse a autora. Isso é essencial para nos aproximar da realidade apresentada. Concordo também que os personagens definem seus finais. É um erro quando os autores criam finais que não condizem com o desenvolver da história, muitos fazem isso simplesmente para fazer um final bonitinho.

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  6. Eu não conhecia sobre o livro, mas gostei do tema tratado e adorei a entrevista com a autora. Fiquei imaginando como seria a parede dela com um monte de post-its, muitas vezes lemos um livro, mas não imaginamos como foi para o autor escrever, e é interessante conhecer este outro lado.

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  7. Que interessante falar sobre terrorismo.
    É algo bem original e peculiar.
    Nem preciso dizer que já quero né?
    Livros com vasta pesquisa histórica me fascina.
    bjs e sucesso!

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