Sonho febril

14 outubro 2019




Livro: Sonho febril. 

Título original: Fevre Dream. 

Autor: George R. R. Martin. 



🚨🚨ADVERTÊNCIA: Às vezes o amor aos ideais é maior do que qualquer outro tipo de amor que possa existir. 



Olá, perdidos! 

Aproveitando o ensejo do halloween (ainda que não comemoremos esta data aqui no Brasil), trago mais uma resenha com esta temática um tanto fúnebre e aterrorizante para vocês. 

A ideia é trazer toda segunda, durante o mês de outubro, uma história de terror/fantasia e hoje a escolhida da vez é “Sonho febril” do meu, do nosso, amado George Martin. 

Obviamente, só descobri essa narrativa após conhecer GOT, - que foi quando Martin ganhou maior destaque na literatura – apesar de se tratar de uma história mais antiga; não só em termos de ambientação da narrativa, mas porque “Fevre dream” foi escrita primeiro. 

O livro conta a história de Abner Marsh, um conhecido barqueiro que agora se vê em estado de falência devido aos muitos prejuízos adquiridos pelos seus vapores. Sem mais esperanças de se recuperar economicamente, Marsh, um homem fiel tanto aos seus princípios quanto aos seus barcos, recebe a irrecusável proposta de Joshua York, um misterioso homem de cabelos brancos, mas com aparência jovial, para uma sociedade. Basicamente, York entraria com o dinheiro e financiaria a construção de um dos maiores vapores já vistos no rio Mississipi, o Fevre Dream, desde que Marsh não questionasse nenhuma de suas ordens ou hábitos um tanto quanto incomuns. 

“[...] – Eu também tinha algo em mente – Marsh disse. – Nós, afinal, somos a Vapores do rio Fevre, e esse barco é a realização de tudo o que eu sempre sonhei. – Ele ergueu sua bengala de madeira e apontou para a cabine do piloto. – Vamos colocá-lo bem ali, com letras grandes azuis e prateadas, bem bonito: Fevre Dream. [...]” 

Além da própria aparência, Joshua possui hábitos bastante estranhos - principalmente sua predileção pela noite – que levam Abner, curioso com os mistérios e os boatos, a quebrar sua promessa de não questionar ou bisbilhotar a vida de seu sócio. Inevitavelmente o capitão descobre que seu parceiro nos negócios é um vampiro. 

“[...] Debaixo dos finos lençóis engomados, Marsh suava como um condenado. Quando conseguiu pegar no sono, ficou revirando na cama e acordando a toda hora, tendo sonhos excitados, furtivos, incoerentes, com sangue, vapores incendiados, dentes amarelos e Joshua Anton York, em pé, pálido e frio, sob uma luz escarlate, com febre e morte em seus olhos irados.” 

Rompendo sempre com a narrativa comum, Martin nos dá uma história recheada de novidades. Primeiro porque ele abre mão das tão conhecidas lendas de vampiros (água benta, alho, estaca no peito) e cria uma definição completamente nova: o povo da noite. Um povo que se assemelha muito com as definições comumente tidas por vampiros, – por exemplo, esses são acometidos mensalmente pela sede vermelha, que nada mais é do que a vontade incontrolável por sangue – mas com uma roupagem totalmente inovadora (pelo menos para mim). 

Cansado de ser esconder, York descobre a solução para boa convivência entre os seus e os humanos, algo que é capaz de aplacar a “sede vermelha”. Mas é aí que os problemas começam a surgir. Ainda que em menor número, existem outros vampiros que não demonstram tanto interesse em aderir aos ideais inovadores e pacíficos de Joshua. 

Os vampiros que se recusam a seguir York são liderados por um dos piores vilões que já conheci: Damien Julian, um vampiro muito mais velho do que qualquer um outro que se tenha conhecimento e o grande mestre de sangue. Sua sordidez e seu comportamento inescrupuloso tentam, a todo custo, frustrar os planos de um futuro livre da sede. 

“[...] – Deixe que o gado crie vida, beleza, o que você quiser. E nós vamos pegar suas criações, usá-las e destruí-las se escolhemos fazer isso. É assim que as coisas são. Nós somos os senhores. E os senhores não trabalham. Deixe que eles façam os ternos. Nós só devemos usá-los. Deixe que eles construam os vapores. Cabe a nós navegá-los. Deixe que eles sonhem com a vida eterna. Mas nós é que devemos vivê-la, e beber da vida deles, saborear seu sangue. Somos nós os senhores desta terra, e essa é a nossa herança. Nosso destino, se você quiser assim, caro Joshua. Exulte em sua natureza, não procure mudá-la. Aquelas pessoas do gado que nos conhecem de verdade de verdade nos invejam. Qualquer uma delas gostaria de ser como nós, se tivesse a oportunidade. – Julian sorriu maliciosamente. – [...] Eles adorariam ser como nós, assim como os negros sonham em ser brancos. E vejam o quanto eles vão longe. Para brincar de senhores, eles chegam a escravizar a própria espécie.” 

Ele é tão ruim que houve uma cena em que eu fiquei com uma expressão de “É sério isso, Brasil?” sem conseguir acreditar no que eu estava lendo. E, convenhamos, Martin não poupa ninguém, então não sei por que esperei algo mais tranquilo desta vez. 

O livro é sensacional, a história é envolvente, pois trata de questões muito mais profundas, como a escravidão que ainda vigorava em alguns estados americanos, fora a escrita de Martin que dispensa comentários. 

O mais interessante, para mim, é claro, é ver como todo o desenrolar da história se dá por conta da defesa fervorosa que cada um tem de seus ideais: Abner e sua obsessão em ter o vapor mais rápido da história e deixar seu legado como capitão; York e sua incansável luta pela a libertação de seu povo da sede vermelha; E, por último, Damien que não abre mão de sua superioridade em relação aos humanos e de suas tradições sangrentas. 

A narrativa é bem completa, então temos acesso às informações bem detalhadas dos hábitos e da história dos vampiros. E, juro, é completamente diferente das outras histórias de vampiros que são mais conhecidas. 

É fascinante a complexidade da personalidade das personagens e é comovente ver o amor que cada um tem por seus ideais (menos o Julian, porque ele é muito ruim. Ruim mesmo!). 

Deem uma oportunidade a essa outra obra maravilhosa do Martin. Vale a pena! 

A presto. 



P. S.: Até que enfim um livro de vampiro raiz. Nada de Nutella por aqui!! Ahahahah 

P. S. 2: Cinco trechos destacadas dos melhores e mais assustadores diálogos. 

P. S. 3: Titio Martin faz uma mega crítica social. É Martin, amore; não tem como ser ruim.

15 comentários:

  1. Ludmila!
    Sou bem fã desses seres empoderados e vis, principalemnte em uma obra de George Martin que é sempre tão explícito e não nos poupa dos moemntos crueis em nenhum de seus livros.
    Confesso que não li esse e fiquei tão interessada, não apenas por ver todos defendendo com garra seus pontos de vista, mas também, para ver quais crueldades virão de Julien.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Martin não nos poupa da maldade de Julian, ainda que essa seja em menor escala do que em outros livros como nas crônicas de gelo e fogo, por exemplo. Mas isso não significa que ela não seja impactante.
      O livro é muito bom e eu o li em uma velocidade assustadora! Ahahahah
      Leia e me diga o que achou das maldades de Damien Julian.
      Bjs!

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  2. Olá Ludmila!
    Confesso que fiquei surpreso ao descobrir essa obra do autor, embora eu tivesse conhecimento de que o mesmo possui outros livros publicados por aqui. Neste livro Martin cativa o leitor pela originalidade da mitologia envolvendo os vampiros, pois vamos combinar, o que não falta são histórias clichês envolvendo as tão famosas criaturas, né?
    A ambientação também é outro ponto que merece ser elogiado, remetendo ao contexto da Primeira Revolução Industrial, e não posso esquecer que comentar toda a profundidade expressa nos personagens, que são trabalhados cuidadosamente pelo autor, como já era de se esperar.
    Beijos.

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    1. Um ponto importantíssimo este da ambientação! Foi sensacional!
      Confesso que estava cansada dos clichês envolvendo esse universo vampiresco, logo foi uma leitura mais do que bem-vinda.
      Bjs!

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  3. Olá! ♡ Nunca li nada do George Martin, mas esse livro chamou bastante minha atenção, principalmente por causa que o autor deu uma nova roupagem a temática vampiros, fiquei curiosa para saber as diferenças dos vampiros criados por Martin dos outros que já vimos em outras histórias.
    Gostei que a trama vai além do que pensamos, pois o autor faz críticas muito importantes e relevantes.
    Acho interessante ver como cada um dos personagens tem ideais, motivações completamete distintas.
    Enfim, gostei da premissa do livro e acho que essa é uma boa oportunidade para eu me familiarizar com a escrita de um dos autores mais aclamados de todos.
    Obrigada pela indicação! Beijos! ♡

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    1. O livro é super interessante e a escrita do Martin é maravilhosa.
      É uma ótima saída para quem ter um contato com as obras do Martin, mas não quer ler toda uma série de livros.
      Bjs.

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  4. Não li nada do autor ainda, mas fiquei muito interessante nesse, pois adoro histórias com vampiros e esse tem um diferencial, não é igual aos outros fiquei bem curiosa para saber como o autor desenvolveu esse diferencial. Parece que foi bem trabalhado a trama e personagens esse vilão desperta curiosidade. Bem interessante abordar a escravidão, que muitos pensam que acabou.

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    1. É bem diferente de qualquer outra história de vampiro que você já tenha visto, tenho certeza.
      Fora que tbm é uma história de época, o que deixa tudo ainda mais tenebroso, pelo menos pra mim.
      Uma leitura mais do que válida.
      Bjs.

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  5. Não conhecia esse livro do George Martin. Na verdade ainda não li nada do autor, mas sou fã do seriado GOT. Eu gosto muito de enredos que exploram essas criaturas terríveis e que são tão sedutoras aos nossos olhos. É diferente a abordagem, mas tão interessante quanto outras que já vimos por aí. Quero muito ler.

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    1. Também conheci o Martin através da série. Apaixonei-me completamente por sua escrita e a sua criatividade genial.
      Vi este livro por acaso em uma livraria e como amo histórias de vampiros e o autor era o Martin, não pude deixar de ler. E qual não foi a minha surpresa ao terminar e descobrir que esse livro é maravilhoso?!
      Leitura mais do que válida.
      Depois conta como foi a experiência da leitura.
      Bjs

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  6. Não conhecia esse livro do Martin ainda, e, para falar a verdade só li os dois primeiros livros de As Crônicas de Gelo e Fogo. E a série eu nem assisti. Então não tenho grande conhecimento. Mas gosto demais das Crônicas e vou ler os outros livros.
    Achei interessante o autor falar sobre vampiros e, felizmente, de uma maneira mais raiz, sem brilhinhos por aí, né? Fiquei curiosa e, mesmo que tenha me afastado bem desse mundo vampiresco, quero ler e conferir essa abordagem do autor. Como você disse, com Martin não tem como ser ruim.

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    1. Nada de brilhinhos por aqui! Áhahah
      Com o Martin nada é sutil ou suave. Toda a trama é intensa e majestosa.
      Bjs.

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  7. Oiii ❤ Nossa, eu nunca imaginei que o George R. Martin tinha escrito um livro sobre vampiros!
    Estou curiosa para saber quais são os hábitos incomuns de Joshua e porque ele quer tanto um vapor e no que isso pode ajudar a trazer paz entre humanos e vampiros.
    Gostei que o livro também fala da escravidão, não imaginava que esse livro falaria de um tema tão importante assim.
    É bom saber que essa história é diferente das outras que existem sobre vampiros, já que fica chato sempre a mesma coisa rsrsrs.
    Beijos ❤

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  8. Olá! Devo confessar que até o momento só fui apresentada a versão do vampiro Nutella, por isso fiquei bem interessada nessa dica, afinal tratasse de um autor que eu admiro (mesmo não concordando muito com sua matança). Sem dúvida será uma leitura bem diferente do que eu estou acostumada, mas acho que vai valer a pena.

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  9. Nunca li nada do Martin. Só de olhar a série As Crônicas de Gelo e Fogo fico pensando se algum dia terei coragem de enfrentar todos aqueles livros rsrs. Entretanto, é inegável as críticas positivas que já ouvi falar do autor e esse livro sobre vampiros me despertou muito o interessante, pois gosto muito de histórias nesse tipo.

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