A prisão do livro perfeito

17 abril 2018


Eu amo livros. 
Amo mesmo. 
E como amante de livros, eu sempre fiquei chocada ao ver pessoas lerem no metrô dobrando a lombada dos livros (Seu idiota! Vai estragar a lombada!!!); ou vendo pessoas dobrarem a página do livro para marcarem onde pararam na leitura (Pelo amor de Deus! Eu devo ter um marcador sobrando na minha bolsa. Espera! Use esse cupom de desconto, que não serve pra nada, pra marcar a página. Não faça orelha no livro!!!); e o mais aterrorizante de todos os meus medos... marcando quotes nos livros com caneta ou marca texto. #chocada
Isso doia profundamente na minha alma. 

Devido a minha coleção de Agatha Christie, eu sempre frequentei os sebos. E, em muitos sebos, eu encontrava livros ótimos, que estavam com um preço maravilhoso; cujo o conteúdo era interessantíssimo, mas que eu não comprava porque eles estavam marcados. 

Você deve estar se perguntando por que raios isso influenciava a minha decisão de compra de forma tão significativa, né? 
Eu tenho dois argumentos. Ou melhor.... tinha. 

O primeiro era que isso deixava claro que o livro já havia sido manuseado, e quebrava o encanto de estar comprando algo no sebo, mas com cara de que comprei novinho em folha. 
Eu sei. Não faz o menor sentido. Mas era como minha cabeça funcionava. Vamos superar isso e passar ao próximo argumento que é ainda mais bizarro. 

Eu achava que se comprasse um livro que estava marcado, as marcações do antigo leitor iriam influenciar a minha leitura e a minha decisão de o que era importante ou não absorrver daquele livro. 
Eu sei.. eu disse que era bizarro...

Muito tempo de passou até que surgisse o kindle, e eu aprendesse a me "desapegar" um pouco da materialidade do livro. E você sabe o que tem no kindle? 

Quando você chega em um trecho que foi marcado por muitas pessoas, ele avisa isso. Ou seja, você comprou um ebook (um livro novo) mas ele vem carregado de um histórico que você não pediu (assim como o livro do sebo). 

Acredito que foi um processo de desapego, começando com o livro físico em si, mas eu hoje não me sinto frustrada de ter a marcação no kindle. Na verdade, descobri que até gosto de saber o que as pessoas andam destacando da leitura. Me leva a algumas reflexões além das envolvidas no texto em si.


Mas uma última barreira faltava ser quebrada. 
Faltava eu tomar coragem de marcar um livro físico à caneta. 

E essa barreira foi vencida esta semana com o livro "A sutil arte de ligar o foda-se". 
Não. Não tem nada a ver com o que o livro ensina. Pelo menos não diretamente. 
Tem a ver com a quantidade exorbitante de marcações que eu queria fazer no livro e a chatice de ter que ficar colocando 300 marcadores (sim, eu cheguei em algo perto disso com este livro) para marcar todas as passagens que queria destacar e perceber, quando sentei para escrever a resenha, que mesmo com os marcadores, eu ainda tinha que reler o texto para achar a parte exata que queria. 

Se eu tivesse usado um marca texto na frase, ela saltaria aos meus olhos. 
Então, eu deixei os 300 marcadores de página e comecei a marcar uma a uma as passagens com uma Stabilo. 

No início veio a apreensão de me arrepender. De manchar o papel. De acabar com os sonhos de leitura de um futuro leitor que venha a encontrar este livro num sebo perdido da cidade, e que deixe de levá-lo pra casa porque a malvada leitora aqui decidiu marcar o livro inteiro. 
Mas depois veio o foda-se. 

Livros cumprem um papel: transmitir uma informação ou leva-lo a lugares diferentes através de sua mente. 
Se o livro esta cumprindo corretamente seu papel e transmitindo a informação, não deveria ser uma marcação (ou 300) que deveriam influenciar o seu valor. 
O que importa é eu ter acesso a informação e da forma mais rápida e organizada pra mim. 
Levei 30 anos para perceber isso. 
E agora vou levar outros 30 anos para reler todos os livros que tenho na minha estante com 300 marcadores de páginas na lombada, para marcar todas as passagens com marca texto colorida. 

Eu FINALMENTE me libertei da prisão do livro perfeito. 

2 comentários:

  1. Meu Deus, como me identifiquei contigo nessa postagem hahaha
    Confesso que sou dessas que tenho um apego imenso com meus livros, e olha, meu TOC não tem me permitido seguir esse caminho libertador que tu conheceu Nat! Quem sabe eu não aprenda logo mais...
    Amei a postagem!
    Um grande abraço

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  2. Há um tempo atrás eu não me incomodava com livros comprados no sebo e que tinham sido rasurados de alguma forma por um outro leitor.
    Depois de um tempo,eu fiquei cheia de "não me toques" com meus livros.
    E lendo o seu post agora,vejo que realmente você tem razão; Livros são feitos para transmitir informações.
    E se nos pertence,e desejamos marcá-los, não vejo problema algum... Vou tentar deixar de ser tão chata com os meus livros.

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