A Verdade sobre a tal da "Alta Literatura"

19 abril 2018


Nesta semana a comunidade literária foi surpreendida pelo email de uma empresa de caixas literárias promovendo sua nova mistery box - contendo livros inéditos - de uma forma um tanto peculiar. 

Ao invés de promover os benefícios do novo produto e agregar valor a marca, eles utilizaram uma abordagem comparativa entre os livros da caixa "tradicional" em relação a nova caixa. Porém, ao fazerem isso, eles foram extremamente infelizes na escolha das palavras e o que era para ser o lançamento de um produto, transformou-se em uma crise para a marca que passou a ser atacada por leitores nas redes sociais que defendem a liberdade de lerem o que quiserem sem discriminação entre "baixa e alta literatura". 

Vamos deixar uma coisa clara?
Pra início de conversa, esse negócio de baixa e alta literatura não deveria existir, e é apenas mais uma prova do quanto a nossa sociedade esta doente ao segregar até a leitura. Como se já não bastasse a segregação entre ricos e pobres; direita e esquerda; agora temos que escolher um lado na hora de ler um livro!! Me poupem...

A segunda coisa que precisa ficar esclarecida é que essa "mancada" nos faz pensar nos valores que esta empresa possui. 
Sabe quando você vai começar num novo job e o RH apresenta a missão... valores.... bla´bla´blá da empresa pra você? Então...
Se fossemos começar a trabalhar nesta empresa, tenho a impressão que o RH passaria que a missão deles é "trazer livros de altíssima qualidade ao mercado brasileiro" e os valores seriam "ser o guardião da alta literatura nacional através de seus curadores e proporcionar o enriquecimento da literatura brasileira". 
Ou seja, eles se colocam em um pedestal elitista de que eles sabem o que é o melhor (leia-se alta literatura) devido a seus curadores e que eles tem o dever moral de melhorar o nível da literatura nacional promovendo a leitura de clássicos, como se os demais livros fossem mera literatura de entretenimento e, portanto, sem valor. 

Só que eles esqueceram que livros tidos como clássicos hoje, como Orgulho e Preconceito; O Sol é para todos; e O apanhador no campo de centeio; se existisse essa classificação na época em que foram publicados, eles seriam enquadrados como YOUNG ADULT! Ou seja, livros de "baixa literatura" na concepção deles.

Dizer que livros YA não trazem reflexões é quase inacreditável, quando temos livros como "Dois garotos se beijando" do David Levithan que aborda o preconceito de gêneros; "O ódio que você semeia" com um retrato cruel e extremamente realista da violência, preconceito e luta racial; "Proibido" da Thabita Suzuma que fala sobre incesto, um dos assuntos mais tabus da sociedade; e se eu for citar todos os livros que estão vindo a minha cabeça enquanto escrevo este texto, a lista será longaaaaaa. 
Sinceramente eu não sei se é muita coragem, burrice ou desinformação afirmar que YA não traz reflexões. 

E ai você deve estar pensando que a empresa se retratou, né? 
Não. Até o prezado momento eu não vi em nenhum grupo literário... em nenhuma rede social da empresa... uma retratação formal. Plano de Comunicação para Crise? Ao que parece, eles não sabem o que é isso. Eles preferem se fazerem de mortos e esperar a poeira baixar. Daqui há pouco a galera esquece... é o que eles devem estar pensando (e rezando). 

A comunidade literária se manifestou viementemente contra o email marketing, postando diversas mensagens de valorização dos livros YA, NA e etc...
Mas eu não vi ninguém dizendo que não concorda com a empresa e por isso não comprará mais os produtos deles. 
Lembra quando a ZARA foi boicotada porque utilizava (ou ainda utiliza) trabalho escravo na confecção de suas roupas? Cadê o boicote dos leitores, editoras e afins para uma empresa que acaba de prestar um desserviço a disseminação da leitura num país em que a grande maioria da população é analfabeta funcional? 

Eu duvido que se isso ocorresse com uma caixa literária nos EUA, se os booktubers gringos não estariam se unindo pra boicotar a empresa de forma a gerar um prejuízo financeiro monstruoso. 
Mas aqui no Brasil? Não... somos um povo passivo. 

Mas até quando? Publicar mensagem em redes sociais é fácil e bonitinho pra todo mundo ver, mas onde estão as atitudes que realmente irão mudar o mundo? Que irão mudar a vergonha desse país na política? No analfabetismo? Na discriminação? 

Se você não pode mudar o seu país e/ou as pessoas, pelo menos mude a sua mistery box para uma que relamente valorize a nossa cultura e nossos leitores, e não apenas o próprio umbigo com seus valores distorcidos.

Atualizando! 

Eis algumas outras publicações que discutem esse episódio para vocês saberem mais.

A treta da TAG: a lição que isso trouxe para o mercado do livro

Você não é obrigado a ler o que não quer. 

Saiu a retratação da empresa, então, clica ai embaixo pra ver o que eles falaram. 

Retratação 



3 comentários:

  1. Nunca li um texto tão ignorante e preconceituoso como este. Se a tal empresa começou a disponibilizar YA em uma nova caixa, que a anterior não disponibilizava, é por que eles valorizam a leitura desses livros e as vê como enriquecedoras do ser. E pelo amor, boicotar uma empresa que tem um ideal tão bacana que é a disponibilização de livros muitas vezes de difícil acesso e agora inéditos na língua portuguesa é no mínimo o verdadeiro desserviço pra o incentivo a leitura no nosso país.

    Existem pessoas com gostos diferentes, é bom ver a empresa abrindo seu leque para agregar mais gente a comunidade. Sem contar, que é mais do que apenas um livro, é um clube que promove discussões e aproxima as pessoas cada vez mais de livros que elas nunca pensaram que iam ler.

    Eu tenho mais é que agradecê-la por enriquecer-me com a leitura da curadoria, e agora bem mais com a inéditos.

    Decepcionada com esse texto tão ignorante e ainda por cima com complexo de vira-lata.

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    1. Caro Sr. Anônimo
      A ideia de criar uma caixa com livros mais comerciais é bom, porém, a execução deixou muito à desejar. O boicote como o senhor mesmo explicitou, deve-se ao fato da empresa não se dignificar a se retratar publicamente à todas as pessoas que se sentiram ofendidas com a comparação que a mesma fez ao promover seu novo produto. E o boicote é uma forma legal de protesto, tendo sido empregado em diversos outros casos, como o citado da Zara. É uma forma de persuadir a empresa a tomar um posicionamento. Trata-se de lutar por igualdade no meio literário; pelo fim da descriminação e inferiorização de gêneros literários, e não complexo de vira-la. Mas obrigada pelo seu comentário de qualquer forma. =)

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  2. Curioso né, justamente quando eles lançam a primeira caixa, com o considerado baixo conteúdo segundo eles, trazem Karin Salughter, uma autora que luta pelo posicionamento e empoderamento feminino. Que luta contra a misoginia e a discriminação em suas obras... aí preciso fazer a mesma pergunta que você fez ali em cima: burrice, desinformação ou senso de elitismo exarcerbado?!?!
    Texto muito pertinente!!!

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