As intermitências da morte

07 outubro 2019




Livro: As intermitências da morte. 

Título original: As intermitências da morte. 

Autor: José Saramago. 



🚨ADVERTÊNCIA: Uma nova perspectiva sobre algo tão cotidiano, mas, ao mesmo tempo, para uns, aterrorizante: a morte. 


Olá, perdidos! 

Aproveitando o mês do halloween, hoje trago para vocês o melhor livro que li este ano (e dezembro ainda nem chegou) e, com certeza, um dos melhores livros que já li na vida. 

No início do semestre passado (vulgo começo do ano), eu “bolei” um esquema de leitura que me permitiria aproveitar o melhor que a literatura tinha a me oferecer. O esquema é o seguinte: faria leituras alternadas de romances célebres/clássicos e contemporâneos. Assim, poderia desfrutar de dois universos literários antagônicos para alguns, mas que, para mim, só são a prova viva de que podemos encontrar histórias incríveis em qualquer lugar ou tempo. 

Como já devem ter percebido, amo falar a respeito de como cheguei até um livro ou determinada história. Bom, a primeira vez que ouvi falar de “As intermitências da morte” foi através de um vídeo de um canal literário que eu particularmente gosto muito (o melhor, na minha opinião). Neste vídeo, a dona do canal comentou que esse livro era um dos favoritos dela. Fiquei curiosíssima, pois acredito muito em suas escolhas literárias. 

Passou-se muito tempo desde que vi o vídeo até a aquisição do livro por um único motivo: Money, din din, soldi. Para quem não sabe, os livros desta editora são um pouco mais caros do que os outros livros em geral. Mas, como deus existe, bem próximo à Bienal, a Amazon fez uma excelente promoção e consegui adquiri-lo por um valor bem mais acessível (Black Friday está chegando e trazendo consigo várias promoções). 

A minha ansiedade para lê-lo era tamanha que, quando o livro chegou, já comecei a ler imediatamente. E, segundo meu esquema, era o momento de ler um clássico. 

Mas, agora chega de enrolação! 

O que raios tem neste livro que fez você gostar tanto assim? 

De modo resumido e bem genérico, o livro narra o desenrolar de inúmeros acontecimentos após uma coisa, até então improvável, acontecer: ninguém mais morre. Isso mesmo, todas as pessoas deixaram de morrer. 

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrários às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante [...].” 

Desde a meia noite do dia 1 de janeiro, ou seja, desde a virada do ano, nenhuma pessoa conseguiu mais romper a linha tênue que separa a vida da morte. Pessoas que sofreram acidentes, acamados ou que estavam em um leito de hospital à espera de dar o passo rumo ao desconhecido não conseguiram mais passar do estado de vida para a morte. 

Inicialmente, grande parte da população é tomada por tamanha alegria, visto que, em seu país (somente neste país), não se morre mais. Mas, Saramago nos mostra com o brilhantismo digno do único Nobel de literatura em língua portuguesa que as questões acerca da morte, ou da falta dela, são muito mais profundas do que a alegria inicial. 

A primeira classe a se ver prejudicada com a não-morte é a dos agentes funerários. Sem morte, sem corpo; sem corpo, sem enterro; sem enterro, os agentes funerários ficam sem emprego e sem renda. Logo após é a vez dos hospitais que - com seus leitos cheios e seus pacientes incapazes de morrer – precisa lidar com a questão de superlotação. Depois, tem-se a igreja. Essa precisa lidar com o fato de que sem morte como se pode vender o ideal da pós vida?

Inúmeras são as classes que se veem “prejudicadas” com a ausência do morrer o que só serve de engodo para toda crítica reflexiva que Saramago faz ao mostrar como a morte está estritamente atrelada ao estado e à política. 

"Nem tudo é festa, porém, ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem, e às vezes, como no presente caso, pelas mesmas razões." 


Neste ínterim, temos uma organização criminosa, a máphia (com ph mesmo para não ser confundida com a outra máfia, aquela mais famosa), que se aproveita da atual situação do país para tentar lucrar, transportando corpos de pessoas em estado vegetativo - ou tão velhas que nem os ossos as aguentam mais – para além das fronteira do país para que possam morrem em uma espécie de “eutanásia”. 

Até a língua se vê condicionada à situação. Percebemos como é interessante a adaptação linguística que se apresenta diante de novas ações, palavras, situações... 

"[...] parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes deste [...]"

Engana-se quem acha que o livro é monótono ou dramático por se tratar de um tema um tanto fúnebre. O autor compõe sua obra de maneira engraçada e dinâmica, recheada de ironias divertidíssimas, mas com uma carga dramática em determinados momentos. Perfeito e pontual. Acontece tanta coisa em um livro tão curto que é realmente de impressionar. 

Outras duas coisas que não passam despercebidas são: a grafia e não nomeação das personagens. A pedido do autor, a grafia do português europeu é mantida, o que não compromete em nada a nossa leitura. Mesmo com algumas expressões que não são do nosso cotidiano, conseguimos compreender o livro em sua totalidade. Em relação à não nomeação, todos os personagens são chamados por seu ofício e não por seu nome, além do fato (ou facto para o autor) de não se ter uma personagem principal. Ou melhor, tem-se, sim, uma protagonista. A mais improvável e impensável: a morte. 

A morte que, muitas das vezes, rechaçada por nós e até mesmo tida como vilã, dá as caras como protagonista neste romance. Partindo, agora, da ótica de quem leva a vida e não mais de quem tem sua vida levada, percebe-se finalmente a importância e relevância da morte em nossas vidas. Como o ciclo só se fecha após sua chegada, como ela pode ser linda e, principalmente, misericordiosa. 

É um livro para ler, reler e, com certeza, indicar. 

Leitura rápida e que nos mostra o que faz de um clássico um clássico. 

A presto! 



P. S.: Foi um dos finais mais fantásticos que já vi em um livro.

P. S. 1: 13 trechos do livro foram, por mim, destacados. 

P. S. 2: Eu literalmente devorei este livro. Lia sem parar. Até mesmo em uma festa eu levei o livro e enquanto estavam comendo eu dei uma fugidinha e achei um canto para ler. Juro que não faço isso com frequência, mas simplesmente não conseguia parar de ler. 

P. S. 3: Pareço meio compulsiva às vezes, mas é só com livros que realmente valem a pena. Juro! 

P. S. 4: Sei que já falei isso, mas foi um dos melhores livros que já li na vida. Só leiam!

COMPRE O LIVRO 

6 comentários:

  1. Ludmilla!
    A questão da morte é tão polêmica, concorda?
    Acreditoq eu Saramago trouxe uma visão diferente de quando ela não acontece e que nem percebemos porque somos tão apegados a forma física das pessoas...
    Bom ver que a linguagem vem pela língua original.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Realmente é uma questão bem polêmica, mas Saramago traz isso com brilhantismo e dinamismo.
      A história dispensa elogios, pois eles não serão o suficiente para descrevê-la.
      Bjs!

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  2. Olá!
    Eu adoro livros com grande teor reflexivo, e nesta obra o autor aborda a morte de uma forma tão criativa e ao mesmo tempo tão pertinente que é impossível não enchê-la de elogios. O fato que mais chama atenção é toda a rede dependente do ciclo natural da vida, sendo que sem o equilíbrio proporcionado pela morte o mundo entra em colapso nos mais variados setores da sociedade.
    Só acho que a capa não traduz muito o bem o conceito da obra, mas mesmo assim a experiência deve ser incrível.
    Beijos.

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    1. Concordo completamente!
      No livro, percebemos como a morte está muitíssimo atrelada às nossas vidas de uma forma que muitas vezes nos é imperceptível.
      Também acho que a capa não traduz a essência do livro. Acho que é mais uma escolha por padronização das obras do Saramago por parte da editora, visto que as capas do autor são muito semelhantes.
      Obrigada pelo comentário.
      Bjs!

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  3. Interessante esse livro, tendo a morte como protagonista deixa um certo ar de diferente, fiquei imaginando a nossa realidade sem mortes seria um caos devido a corrupção, sem falar no excesso de pessoas, é uma leitura que nos deixa refletindo e se questionando. Eu ainda não li nada do autor, mas pelos elogios ele deve ser muito bom, ainda mais que você não conseguiu largar o livro rs.

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    1. O Saramago é excepcional! Só leia! Ahahahah
      O livro é divertidíssimo e muito reflexivo.
      Estou muito ansiosa para ler outros livros dele que estavam negligenciados na estante.
      Bjs

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