S. Bernardo

22 julho 2019


"(...) Continuemos. Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo o caminho dá na venda." Pg. 9 e 10.



Se queriam mais uma resenha de Graciliano Ramos ...



Então, venham para o drama, digno de cinema, do mundo de Paulo Honório!

Nosso protagonista, também narrador, Paulo Honório, mesmo sem pai nem mãe, foi criado pela doceira Margarida. Decide contar a sua trajetória de vida. 

O mesmo, não possui muitas recordações da infância.  Já esteve preso na juventude, por aproximadamente quatro anos, por ter esfaqueado uma pessoa - pelo motivo de ciúmes.

Porém, é neste tempo, na cadeia, que Paulo - além de aprende a ler e a escrever - impulsiona a ideia de comprar a fazenda, aonde trabalhou, a São Bernardo.

Ao sair da cadeira "meteu o pé na estrada", tendo uma vida de nômade e realizando negócios em diversas terras. Frio e calculista, nunca se esquivou de usar a violência quando necessário.



Quando consegue juntar algumas economias, retorna a sua terra natal, Viçosa, com o desejo de adquirir a sonhada fazenda São Bernardo.

"Mudou tudo. Gente nasceu, gente morreu (...). O povoado transformou-se em vila, a vila transformou-se em cidade, com chefe político, juiz de direito, promotor e delegado de polícia." Pg.43
Paulo Honório inicia uma  falsa amizade com Luís Padilha, herdeiro de São Bernardo. Logo após, percebendo a inocência do rapaz e a dificuldade dele em lidar com o álcool e com o jogo, ele vai emprestando dinheiro, e aos poucos, consegue conquistar a confiança dele.

Com isso, Luís começa a financiar projetos que não trarão sucesso, incentivado por Paulo Honório. Contudo, o protagonista tinha como real intenção, a falência do "amigo". Tendo sucesso em seu plano, Paulo Honório compra a fazenda S. Bernardo - por um preço irrelevante.
"A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. (...)" Pg. 163
Eu, que já esperava tudo de P. Honório, não me surpreendi quando este - com a ajuda de seu amigo Casimiro Lopes -  manda matar Mendonça ( fazendeiro vizinho) e consegue expandir os limites das terras da São Bernardo.
Gente, o cara, não só faz muitas injustiças como,
utiliza de todos os meios que pode para garantir as impunidades.
Seus ajudantes são: Gondim, o jornalista local; o padre Silvestre;
e o advogado Nogueira, que manipula os políticos locais.

E no meio desse jogo de poder, Paulo decide que precisa de um herdeiro. Então, um dia, conhece a professora Madalena. Da mesma forma determinada como conseguiu obter vários objetivos, ele convence Madalena a se casar com ele. O que não esperava, é que a mesma não fosse uma mulher frágil e submissa.
" Quando dei acordo de mim, a vela estava apagada e o luar, que eu não tinha visto nascer, entrava pela janela. Aporta continuava a ranger, o nordeste atirava para dentro da sacristia folhas secas, que farfalhavam no chão de ladrilhos brancos e pretos. O relógio tinha parado, mas julgo que dormi horas. Galos cantaram, a lua deitou-se, o vento se cansou de gritar à toa e a luz da madrugada veio brincar com as imagens do oratório. Pg. 205 e 206
Por não conseguir subjugar a esposa, como controlava a todos, ele se tornou mais bárbaro (com qualquer um a sua volta) e revelava um ciúmes excessivo. Mesmo com o nascimento do filho, não  ajudou a amenizar a situação. Pelo contrário, a cada dia se torna mais paranoico. Já Madalena, nesta solidão, sofria em demasia e se sentia humilhada. Até chegar ao ponto, de perder o afeto pelo próprio filho.

Logo, meu anjo, o desfecho é 
exatamente o que você está pensando.
 Triste, muito triste! 

Esse acontecimento, se alonga com vários personagens indo um para cada lado. E em meio a solidão - somente com o seu cachorro e o leal capataz Casimiro Lopes - Paulo Honório, amargurado pelo passado, escreve suas memórias.
" (...) O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada." Pg. 228
Meus Anjos, este narrador foi de ajudante de cego a latifundiário. Nos mostrando a ascensão P. Honório, na conquista e desenvolvimento de S. Bernardo, até a sua queda. Chegando ao "mar de solidão" com uma precária situação financeira. Ao desenvolver a leitura, em forma de flash back,  percebemos suas confusões psíquicas e inseguranças. 

Como adiantei, na resenha anterior, este livro foi lançado em 1936 (antes do livro "Angústia"). E, assim, como na obra do Top Comentarista é um enredo existencial, com o narrador (sendo o protagonista, como disse no início da resenha) se desnudando e expondo todo o ciclo de culpas intensas. Sendo assim, apresentado ao leitor, a visão interna do "dominador": seus medos, tensões e contradições. Além dos privilégios do "poder".

Curiosidade:
  • Este romance se passa na "Era Vargas".
  • Há um filme, brasileiro, com o roteiro baseado nesta obra, "S. Bernardo" de 1971. Com o seguinte elenco : Othon Bastos, Nildo Parente, Isabel Ribeiro e Mário Lago.

Um pouco sobre Graciliano RamosGraciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrângulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Filho de Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos, pertenceu a classe média do interior alagoano. E foi o primeiro de dezesseis irmãos. 
Terminou o segundo grau em Maceió. Morou no Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista durante alguns anos.
Em 1915 volta para o Alagoas e casa-se com Maria Augusta de Barros, que falece em 1920 e o deixa com quatro filhos. 
Trabalhando como prefeito, de uma pequena cidade, foi convencido por Augusto Schmidt a publicar seu primeiro livro, “Caetés” (1933), com o qual ganhou o prêmio Brasil de Literatura. Depois foi preso político, do governo Getúlio Vagas. 
Em 1936, casou com Heloísa Leite de Medeiros e teve mais quatro filhos.
Artista do segundo movimento modernista, Graciliano Ramos adoece em 1952 e vem a falecer - de câncer do pulmão - no dia 20 de março de 1953, aos sessenta anos, na capital fluminense.

“Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. ( ... ) Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances.”
 Trecho da carta de Graciliano ao seu tradutor argentino.


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7 comentários:

  1. Graciliano Ramos,tem o "poder" em suas escritas,de mostrar o lado mais perverso do ser humano,para conseguir o que almeja... É o caso do personagem Paulo Honório.
    E no final, só sobrará angústias... Mar de solidão,como bem nos contou.

    Ótimo livro!

    *Adorei a foto

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  2. Graciliano, sendo Graciliano... Interessantíssimo, além de abordar um tema recorrente na época, até por diversos autores consagrados. Gostaria de começar a ler mais clássicos, visto que demasiadas obras buscam a autoreflexao. Adorei a resenha, além das curiosidades e biografia de Graciliano, espero ler e assistir o filme. Obrigada!! Super Beijo

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  3. Tem muita gente que torce nariz para os clássicos, mas veja bem a riqueza de detalhes expostos na resenha. É uma trama consistente, repleta de detalhes e nuances, personagens bem construidos. Às vezes o livro pode nem ser bom, mas temos que admitir que tem suas qualidades e valores. Quero ler.

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  4. Olá! Nossa lendo a resenha já pensei que o enredo daria uma ótima novela (cheguei perto, pois temos um filme), e não é para menos, pois a história é repleta de acontecimentos mostrando os altos e baixos desse protagonista tão controverso. A vontade em ler algo do autor só tá crescendo.

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  5. Fiquei impressionada com este personagem, um verdadeiro pilantra e interesseiro, mas isso nos mostra a realidade tem muita gente assim que se aproveita da ingenuidade das pessoas para tirarem proveito e que gostam de dominar as pessoas, essa leitura deve mexer com a gente e nos deixar pensando sobre como a vida das pessoas mudam, as vezes para melhor e outras para pior.

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  6. Não conhecia o livro, confesso que não conheço muitas obras do autor, contudo adorei a resenha e sobre o que se trata o livro, parece ser uma leitura impactante por ter este personagem maldoso.

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  7. Amei muito esse livro quando o livro.
    Odiei o Paulo, sofri pela Madalena. E o final foi estarrecedor!
    Mas tenho que reler. O li quando tinha 17 anos, tantos anos depois, quero saber o que vou achar kkk
    Bjs

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